A observadora

Neuton Corrêa | 07/08/2008


Sinopse


Jamais imaginei que todo mundo pudesse ter um defeito na perna. Mas tem! Obtive essa informação com uma mulher em uma parada de ônibus.

Estava em um transbordo com destino à faculdade. Havia acabado de conhecer esse caminho. Geralmente, esse trajeto encurtava a viagem em 45 minutos contra as duas horas que se gasta pela rota costumeira. Mas, por ali, é preciso pegar quatro linhas, e eu ainda estava me preparando para embarcar no segundo carro.

O dia começava; o sol batia forte no rosto daquela mulher que estava sentada em uma mureta do jardim de uma casa de conjunto: uma idosa, gorda, pele clara e cabelos brancos, um branco em tom de pluma de samaúma. Olhei-a atentamente, e, conclui que o sol lhe extraía muita água e gordura do corpo. Para mim era um bom sinal, sinal de que já fazia horas que ela permanecia ali e que, portanto, o ônibus não se demoraria a passar. Entretanto, foi mais um engano de passageiro.

O ônibus demorou e, então, resolvi também sentar na mureta. Assim que pus o corpo a descansar, fui abordado por ela:
- O senhor já percebeu que todo mundo tem um defeito na perna? Imediatamente, minha imaginação procurou exemplos que pudessem constatar ou não essa informação bizarra. Porém, sugestionado pela certeza que ela ditava, minha memória só trouxe imagens de pessoas com deficiência na perna. Dois dos exemplos que me ocorreram chegaram como provocação, porque a primeira perna defeituosa de que lembrei foi a do “Blaycoco”, lábio leporino, bastante conhecido em Parintins, e a outra foi a do "Aranha", que viveu a infância e a adolescência em peraltices. Tão peralta que passou a puxar a perna depois que foi tirar uma brincadeira com um cavalo, que reagiu com uma patada que lhe tirou os movimentos da perna direita.

Esses dois exemplos me conduziram à inquietação: Deus castigou o Aranha porque ele foi molestar o animal, mas e o Blaycoco, que mal fizera para merecer essa deficiência?

Retomei a atenção para a mulher, quando ela dizia:

– Dê uma olhada na perna dessa moça?

Olhei e não vi nada de anormal. Mas ela logo apontou o defeito:

– Ela esfrega uma coxa na outra.

Ouvindo isso, conclui que a divagação que eu tivera feito era um exagero ao alcance do detalhe que a aquela senhora conseguia mirar.

Do outro lado da rua passou uma jovem e ela aplicou outro comentário:

– A perna dela parece um V. De fato, parecia um V mesmo de cabeça para baixo. As coxas se fechavam até o joelho e do joelho para baixo se abriam para imitar a letra.

Já estava com mais ou menos dez minutos à espera do 439, quando passa outra moça. Vi a jovem antes dela, talvez enquanto ela se detinha a observar outros andares. Aproximando-se cada vez mais da mureta, dava para notar que era uma linda perna. Foi chegando e eu já não tinha dúvida: era uma bela perna. Mas não ao olhar da mulher de cabelo de semente de samaúma, já que assim que a moça passou por nós, com trajes de academia, a mulher me cutucou:

– O senhor viu a perna dela?

E dei-lhe uma resposta simples.

- Sim! Isso com a cabeça balançando para cima e para baixo.

Envolvido pela mulher, já me sentia um observador de pernas, quando ela cortou o elogio que eu ia soltar e disse:

- A perna dela é grossa e seus pés parecem patas de búfala.

O 439 apontou na esquina, levantei-me para fazer a parada do ônibus, corri na direção da entrada dianteira, mas antes de embarcar resolvi olhar a perna da minha amiga ocasional. Caminhando para a porta traseira, ela arrastava a perna direita, mais fina e mais curta que a perna esquerda.

Ri e embarquei!

Autor


Endereço: Neuton Corrêa é filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam e mantém o site Texto Br.

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Quarta-Feira, 22 de Maio de 2013





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