A dúvida

Neuton Corrêa | 2/6/2009


Sinopse


No ano das bodas de prata de seu casamento, ele encontra três cartas. Eram correspondências esquecidas que mudariam seu casamento e abalariam sua confiança na igreja e sua fé em Deus.

Foi o que pude concluir da conversa com um daqueles parceiros ocasionais de viagem. Aguardávamos o ônibus na parada do Colégio Dom Bosco, no Centro. Eu estava em pé. Ele, sentado, agitava as pernas aceleradamente. As mãos não sossegavam. O pescoço se contorcia de um lado para o outro à espera do carro.

O ônibus chegou. Subi e fiquei nos bancos de trás. Ele tomou a mesma linha e se sentou ao meu lado. Assim que o carro seguiu viagem, voltou a agitar as pernas ao mesmo tempo em que fechava o rosto, franzia a testa e murmurava alguma coisa.

Não dava para traduzir o ruído. Mas era possível notar que trocava um intenso diálogo consigo mesmo. Conversava com uma pasta de documentos que abria e fechava o tempo todo. Às vezes, mexia no elástico e quando parecia que abriria a pasta, fechava-a e fingia não olhar.

Passei horas observando aquele ser impaciente, mas ao me distrair, fui abordado por ele:
- Como as coisas acontecem com a gente, não é?
Concordei apenas com a cabeça e ele continuou.
- Estou casado há 25 anos e olha o que encontrei. Foi escrito há dez anos!

Ele insistiu para eu ver os papéis, recusei, mas acabei passando o olho no material. Eram três manuscritos em folha de papel e um cartão-postal escrito “Fortaleza-CE”. Devolvi as cartas imaginando as fantasias de quem as escreveu.

Enquanto pensava nisso, ele retoma:
- Leia para eu ter certeza. Eu não acredito no que estou vendo.

Diante do olhar dos outros passageiros, senti-me constrangido, mas atendi. Um dos textos começava assim: “Meu amor, seja lá onde estiver, saiba que nunca esquecerei você. Nenhum inverno apagará o calor de minha paixão: nem o meu nem o seu impedimento”.

O cartão-postal trazia a imagem de uma praia com barquinhos ancorados nas proximidades e um filete de vegetação separando o mar de um conjunto de prédios da orla. No verso, um poema que não memorizei e, no rodapé, a frase: “Gostaria que você estivesse aqui e que o nosso desejo se realizasse”. No fim, a assinatura “Pe. com amor”.

Naquele momento, pensei em perguntar, mas não foi preciso. Ele mesmo explicou:
- Esta carta é da minha mulher. Foi escrita quando estávamos com 15 anos de casamento. Encontrei essas coisas esta semana quando resolvi reformar a casa para a festa dos nossos 25 anos. Nunca me passou pela cabeça que ela pudesse fazer isso comigo. Para mim, ela sempre foi uma grande esposa: carinhosa, boa mãe, responsável. Você acha que ela me traiu?

Não tive dúvida na resposta:
- Claro que não! Está escrito na carta. Tanto ele quanto ela, pelo que está escrito, ficaram apenas no desejo.
Ele interrompeu e falou:
- E se ela consumou o desejo com outro?
- Bem, neste caso você tem que conversar com ela.
- Desde que peguei esses papéis, passei a observá-la todos os dias. Não consigo ver nenhuma diferença da menina que conheci na infância para a mulher de hoje. Nos últimos dias, ocupo o tempo pensando no que vou lhe dizer, mas na hora não tenho coragem. Tenho medo de mim.

Dois passageiros ao meu lado começaram a me olhar e a fazer gestos com as mãos por trás da cabeça erguendo os dedos mínimo e indicador. Parecia a forma de um “V”. Ri e tentei encerrar a conversa:
- Esquece, rapaz. Entrega isso a Deus.
Nesse momento, ele se levantou, mordeu os dentes, fechou a mão e começou a xingar. Eu me tremi. E ele falou:
- Foi nessa história de Deus, de ela ir para igreja todo dia e de querer ajudar o padre que fiquei perturbado até hoje.

Evitei ouvir o resto da história. Fui para frente do ônibus, mas ainda o vi puxar conversa com outra pessoa.

Autor


Endereço: Neuton Corrêa é filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam e mantém o site Texto Br.

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Quarta-Feira, 19 de Junho de 2013





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