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A morte de dona Bundinha


Por Neuton Corrêa em 6/18/2009

Por descuido, saí do trabalho com o crachá no peito. Não passava por mim que o vacilo me faria viajar no tempo. Nem que aquela identificação tocaria no maior constrangimento de quem escreve em jornal: a descoberta do erro. A propósito, evitar o erro é uma luta diária de quem trabalha nesta profissão. Tenta-se de tudo, mas sempre eles passam pelo crivo.

Agora, minha preocupação com isso aumentou. Aumentou porque nesse dia que saí do jornal com o crachá fui abordado por um cidadão, durante um deslocamento no Interbairros 002. Era um senhor alto, forte e claro. Parecia que havia acabado de sair de um compromisso importante. Usava calça e paletó preto e uma camisa verde por baixo. Calculei que tivesse mais ou menos 75 anos idade.

Quando embarquei, esse cidadão já estava na viagem. Assim que sentei, estranhamente, ele passou a me olhar. No primeiro momento, disfarcei. Virei o rosto para o outro lado, fingindo olhar para a rua, mas, na verdade, observava-o pelo reflexo do vidro da janela do ônibus.

Ele estava querendo ler o meu crachá. Tanto que se levantou, saiu de seu lugar e se curvou em direção ao meu peito. Quando percebi o interesse dele, virei a identificação. E ele sorriu e disse: “O senhor trabalha no Manaus Hoje?” Respondi que sim e continuou:

- Eu fui amigo do seo Calderaro. Um dos jornais que trabalhei foi no jornal A CRÍTICA.
A conversa me interessou e perguntei:
- Quando?
E ele:
- Faz muito tempo. Eu trabalhei em vários jornais. Hoje, estou aposentado. A única coisa que faço com jornal é ler. Leio todo dia.

Notei um saudosismo em suas palavras e procurei aproveitar melhor aquele encontro, perguntando:
- Em quantos jornais o senhor trabalhou?
- Eu sou do tempo em que o Jornal do Commercio era feito pelo seo Vicente Reis. Você sabe quem foi ele?

Respondi que não e ele continuou:
- Foi o pai do governador Arthur Cézar Ferreira Reis, o primeiro governador do Amazonas após o golpe militar de 1964. Você não deve lembrar. Nem eu quero lembrar, disse fechando o olho e suspirando, profundamente.

Alegre com o assunto, exibi um pouco do meu conhecimento sobre o assunto:
- O governador Arthur Cézar é considerado até hoje o mais intelectual de todos os governadores que passaram pelo Estado. Dizem que escreveu mais de 200 obras. Eu só não sabia que Vicente Reis era pai dele.

- Vicente Reis era muito zeloso pelo jornal dele. Ele ajudava pegar matéria, escrevia, ajudava a imprimir e ainda ia para o balcão vender jornal, porque naquela época não tinha distribuição.
Foi aí que ele lembrou a história do erro do jornal:
- Vou te contar uma história daquele tempo:

“Morreu uma mulher famosa na cidade. O nome dela era Raimunda, mas era conhecida como ‘Mundinha’. O jornal anunciou a morte, convidando o povo para o enterro. Mas, ao invés de escrever “Mundinha”, por um erro na composição do jornal - que aquela época era feito no linotipo - escreveu “Bundinha”. Quando o jornal circulou, foi uma correria. O pessoal ia comprar de dois, de três, de cinco jornais. O seo Vicente ficou desconfiado do movimento, descobriu o erro, corrigiu e fez outra rodada. Depois disso, apareceu um menino e pediu dez jornais. O garoto saiu de lá e não demorou muito voltou e disse: ‘Não, Seo Vicente, não é esse o jornal que o papai quer: ele quer o jornal da imoralidade mesmo, o da dona Bundinha.”

Não contive o riso e dei gargalhadas, imaginando o título: “Morre dona Bundinha”.

Sobre o Autor

Neuton Corrêa é filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam e mantém o site Texto Br.

* Os artigos publicados nesta seção, não expressam necessariamente a opinião do site e são de responsabilidade exclusiva dos autores.



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